Saturday, 26 May 2012

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios (V)

“Muito além das ideias sobre o que é certo e errado estende-se um campo. Aí nos encontraremos.” Rumi (1207-1273 d.C.)

Num antiquado alfarrabista na parte oriental da capital, contornando uma grande rotunda atravessada de quiosques de vendas de jornais, encontrei casualmente uma versão antiquíssima do livro persa “Hezar Afsaneh” (“Mil Histórias”). Na capa, original, lauta em entrelaçados geométricos que adotavam o subtil aspeto estilizado de formas hexagonais estreladas e de gavinhas geométricas abertas, que se repetiam indefinidamente e se atraiam umas às outras, sem nunca realizarem uma combinação ajustada, surgia uma inscrição, em parsi, de um dito do profeta Maomé que eu consegui traduzir para algo como “os meus olhos dormiam, mas o coração jamais dormirá”. Nada mais adequado. Desfolhando as suas quase carcomidas cinco centenas de páginas, deparei, a dado passo, com um interessante aforismo relacionado com uma figura “divina”, numa espécie de apólogo em cadeia à semelhança dos clássicos contos d’ “As Mil e Uma Noites”. Desfolhei, com viva curiosidade, esse folhento volume e, num capítulo marcado com traços a lápis de carvão, eram enaltecidos os valores de Mushkil Gusha, um género de santo, a quem eram atribuídas propriedades espirituais incontestáveis.
A história em si era muito longa, aliás nunca terminava. E tinha muitas versões. O nome Mushkil Gusha é uma designação persa para “o Dissipador de Todas as Dificuldades”. De grande parte dos iranianos com quem falei, obtive diferentes respostas. Alguns diziam-me que provavelmente seria ‘Ali, o genro do profeta Muhammad. Uma iraniana a quem coloquei essa dúvida, respondeu-me objetivamente: “É Deus, não é?!”. Outros dizem que Mushkil Gusha é o profeta Khezr “o Verde”, santo das confrarias dervixes, o patrono dos sufis, o “Mestre dos Mestres”, o “Murshid” dos santos, o ressuscitador das almas, o misterioso “Cavaleiro Verde” que tendo atingido a fonte da “Verdade” e bebido da “Água da Imortalidade” não conhece a velhice nem a morte.
O Alcorão menciona-o, sem citar o nome, como “um dos Nossos servos (...) um servidor dos Nossos Servidores, a quem concedemos uma misericórdia que procede de Nós e a quem Ensinamos uma ciência que procede de Nós” (s.18:65). A figura mais próxima a ele, encontrada na literatura, é Melquisedec, que aparece no Génesis, XIV: 18-20, como o rei de Salém, sumo-sacerdote que abençoa Abraão, e é alegorizado por São Paulo na Epístola aos Hebreus, V: 6, 10 e VII: 1, 10: “(...) ele era sem pai, não teve principio dos dias, nem fim da existência (...)”. Quer isso dizer que apareceu misteriosamente e parece ter vivido todo o tempo, embora em Herat haja uma tumba que dizem ser dele. De acordo com a tradição, habitualmente ele não é visível, mas pode aparecer sob a forma de um homem idoso, porém de grande vitalidade, com uma longa barba branca, vestido de verde, quando socorro e guia são desesperadamente necessitados.
Ainda hoje, no Irão, e particularmente entre as mulheres, persiste a tradição de evocar as aventuras de Mushkil Gusha. A lenda é contada todas as semanas, às sextas-feiras, dia santo muçulmano. Para além disso, têm o cuidado de distribuir pelos pobres um prato especial de comida. Esse prato, que não é mais do que uma mistura de ervilhas assadas, passas, tâmaras secas, figos secos, amendoins e pevides, toma a designação de “aajeel” ou “nokhod kishmish”. É por causa de Mushkil Gusha que as histórias sobre si narradas são lembradas por alguém, em algum lugar do mundo, dia e noite, onde quer que exista gente que precise de ajuda...

“Planta a árvore da amizade para a paz do teu coração. Arranca o arbusto da inimizade que envenena a vida. Aproveita a noite de diálogo, porque depois de nós o mundo irá girar muito mais ainda.” – Hafiz

Vem isto a propósito, em suma, ao ver o cenário lúgubre em que se pode transformar a atual situação no estreito de Ormuz. As ambições nucleares do Irão podem desencadear “uma nova Guerra Fria” mais perigosa que a registada entre os países ocidentais e a União Soviética no passado. Em Bruxelas, no início do mês de Fevereiro deste ano, após uma tensa reunião, os 27 representantes diplomáticos de países da União Europeia (UE) aprovaram uma imposição de um embargo às importações de petróleo do Irão. Como resposta, o governo de Tehran ameaçou bloquear o estreito de Ormuz, por onde passa 40% do tráfego de exportação do petróleo mundial.
O mais recente sinal de “deceção” para com os esforços postos em marcha pela comunidade internacional aconteceu a 21 de Fevereiro, após Teerão ter recusado a entrada de uma missão da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) na central de Parchin, alegadamente uma base nuclear com fins militares. Naquela que seria considerada uma “última hipótese” para Teerão, o embaixador do Irão junto da AIEA, Ali Asghar Soltanieh, não descartou a possibilidade de as negociações poderem continuar no futuro. Já este mês, nova ronda de diálogo deu o mote a um possível consenso. E, neste arriscado impasse, uma vez mais a humanidade arrisca uma perigosa clivagem de incontornáveis proporções. Já escrevia Paul Valéry, com abalizado conhecimento, que “nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais (...) Sentimos que uma civilização tem a mesma fragilidade que a vida”.
Que a figura grandíloqua de Mushkil Gusha, “protetor e guia dos mortais”, ora se reinvente, reconstrua e pulse, num desejo explícito de que a paz consiga sempre prevalecer, guardando os seus povos de nova truculência.

Ao estimado amigo Pedro Padinha, agradeço a gentileza na cedência da foto de ilustração de sua autoria.

Sunday, 20 May 2012

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios (IV)

Sob o ponto de vista estratégico, o Irão tem um valor vital de charneira na região centro-oeste meridional do continente asiático, por constituir um espaço de comunicação entre o vasto propugnáculo compreendido entre a Europa, Ásia, África, o oceano Índico e o estreito de Ormuz, configurando-se como uma zona de proximidade entre quatro grandes conjuntos geopolíticos: o subcontinente indiano, o Médio Oriente, o bloco contíguo das ex-repúblicas soviéticas e a China.
Desde 1787 que o Irão tem como capital Teerão (Tehran ou Teheran), metrópole localizada no sopé dos montes Elburz, a 1220 metros de altitude e a uma distância que pouco ultrapassa os 250 km da orla do mar Cáspio. A moeda oficial iraniana é o Real Iraniano (Iranian Rial; IRR; 10 Reais Iranianos = 1 toman ou toe’man). Os bancos regulam-se pela lei islâmica e, como tal, não praticam o juro, cobrando apenas uma comissão.
A atual divisa nacional do Irão existe desde 1906. O verde, o vermelho e o branco, dispostos horizontalmente, formam o conjunto de cores da bandeira nacional iraniana. Nos primórdios, o seu campo insigniológico mostrava um sol de aurora e um leão empunhando uma espada. Este emblema volveu-se vermelho em 1979, data do regresso do exílio do Ayatollah Ruhollah Musawi Khomeyni. Ao longo das faixas verde e vermelha, fulge bordado o nome “Allah” (“Deus”), repetido 22 vezes. Ao centro do campo, na banda branca, reunindo os conceitos de Deus, um atributo escatológico shi’ita, símbolo de perfeição, equilíbrio, unidade, poder e solidariedade, reproduz os cinco deveres emblemáticos (“ash-sha’a’ir”) do Islamismo: a Profissão de Fé, a Oração, o Jejum, a Esmola e a Peregrinação.
A religião predominante no Irão é a muçulmana, maioritariamente de corrente shi’ita, de “shi’a” ou “shi’atu ’Ali” (“partido, seguidores, de ‘Ali”) – o Imam ‘Ali, símbolo e herdeiro espiritual da cavalaria muçulmana (“futuuah”), assassinado em 641 por um Karadjita, símbolo da cavalaria espiritual muçulmana. Os shi’itas admitem a sucessão de doze imanatos. ‘Ali ibn Abu Talib (também chamado al-Murtada) terá sido o primeiro, seguindo-se-lhe, por ordem, Hassan ibn ‘Ali (Zakiy), Hussain ibn ‘Ali (Sayyid ash-Shuhada), ‘Ali ibn Hussain (Zayn al-Abidin), Muhammad ibn ‘Ali (al-Baqir), Ja’far ibn Muhammad (as-Sadiq), Musa ibn Ja’far (al-Kazim), ‘Ali ibn Musa (ar-Rida), Muhammad ibn ‘Ali (al-Jauuad), ‘Ali ibn Muhammad (al-Hadi), Hassan ibn ‘Ali (ar-‘Askari) e Muhammad ibn Hassan (al-Mahdi al-Muntazar, “o bem guiado por Deus”, o Messias, enviado dos últimos tempos, que estará prestes a regressar à terra para restabelecer a justiça, combater e aniquilar o anti-Cristo, “al-massih-ad-dajjal”, isto é, “o impostor” ou “falso messias”). O shi’ismo dos doze foi, de resto, a pedra em que assentou o primitivo estado teocrático, o safávida.
Convirá aludir que no Irão existe uma estrutura eclesiástica muito hierarquizada. Genericamente, para os shi’itas, a autoridade religiosa assenta no consenso dos imames, o que constitui o artigo 3º do seu credo, a seguir a Deus e ao Seu profeta. O crente reconhece o seu guia espiritual de entre seis arquétipos de virtuosos teólogos: o “villayayt-faqih”, o governo de jurisconsulto religioso, a entidade tutelar da correlação entre a política e o divino; o “ayatollah-uzma”, culto do direito canónico que tem por missão decidir se a legislação está ou não conforme os preceitos islâmicos; o “ayatollah” propriamente dito, que significa “sinal de Deus” (“ayat ‘Allah”), por conseguinte paradigma de sabedoria e modelo a seguir. Seguem-se os “hujja’t-ul-islam”, que se ocupam da vida social dos crentes, os “saghat-ul-islam”, os que deram já provas de maturidade no primeiro degrau da hierarquia e, por fim, os iniciados na carreira eclesiástica, os “talabah” (“taliban”, no singular). O “faqih” é ainda o Comandante Supremo das Forças Armadas (Forças Permanentes; Forças de Mobilização ou “Baseej”, voluntários) e do corpo da Guarda Revolucionária (“Pasdaram”).
O atual chefe de Estado iraniano é, desde Agosto de 2005, o Presidente Mahmoud Ahmadinejad, enquanto o líder espiritual da Revolução Islâmica é o Ayatollah Seyed Ali Khamenei. Desde a constituição de 1979 que o Irão é uma República Islâmica, na qual o poder político está confiado à suprema autoridade de um líder espiritual (jurista shi’ita), o “marja-e taqlid”.
(continua)

Saturday, 12 May 2012

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios (III)

“Sabes lá o que o futuro te vai dar. Sê, por isso, hoje feliz até mais não! Amanhã, talvez a lua te procure em vão” – Omar Khayyam (1048-1139 d.C.)

Em tempos de que se perdeu a memória, um ramo dos povos indo-europeus deslocou-se para o sul da Rússia e, mais tarde, desceu em latitude e ocupou o planalto do Irão. Desta gente descendiam os medos e os persas, que vieram a notabilizar-se como guerreiros e criadores de um grande e poderoso império. Os persas e demais habitantes do Irão designavam-se a si mesmos de arius, que quer dizer “senhores” ou “nobres”. E à região que povoaram chamavam Aryan, “a região dos nobres”, donde provém o nome de Irão.
Organizado o território sob a hegemonia dos persas, que acabaram por absorver os medos, os reis Ciro e Cambises lançam-se numa política de expansão, a caminho do Mediterrâneo, e conquistam o Império Assírio-Babilónico e o Egipto. Quando Dario sobe ao trono, encontra-se senhor de um império vasto, que procura organizar, administrar e engrandecer culturalmente. As lutas com os gregos provocam a ruína do império persa, que viria a ser conquistado, cerca do ano 331 a.C., por Alexandre da Macedónia. Este terá ficado tão despeitado pela esplendorosa opulência de Persépolis, a capital dos persas, que a mandou destruir. Ruínas que ainda hoje documentam a prosperidade daquelas épocas remotas.
Situado no sudoeste asiático, na zona denominada de Médio Oriente e em concreto no golfo Pérsico – zona tradicionalmente instável, mercê das assimetrias religiosas, dos desdobramentos culturais e demais ruturas do equilíbrio na área do poder político e militar –, entre os paralelos 25 e 40 de latitude Norte e os meridianos 45 e 65 de longitude este, o Irão, oficialmente República Islâmica do Irão, em parsi Jomhury-ye Eslami-ye Iran, com uma forma retangular, cobre uma superfície terrestre de aproximadamente 1.684.184 km², estendendo-se 2.200 km de noroeste a sudeste e 1.900 km de noroeste a sudoeste, sendo o total de linha de costa de aproximadamente 2.440 km.
Um olhar pelo mapa diz-nos que o Irão tem por fronteiras, ao norte, com a Arménia (35 Km), o Azerbaijão (432 Km), o mar Cáspio e o Turquemenistão (992 Km), a este limita com o Afeganistão (936 Km) e o Paquistão (909 Km), a sul o litoral é banhado pelas águas do golfo de Omã, do golfo Pérsico e pelo estreito de Ormuz e, a Oeste, tem por vizinhos o Iraque (1458 Km) e a Turquia (499 Km). A menos de 100 km, o Irão detém ainda fronteiras marítimas com o Reino da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait, e a menos de 200 km com o Bahrain, a Rússia, em concreto a zona da Chechénia e Geórgia e a Síria.
Para além disso, o Irão possui ainda uma série de ilhas no estreito de Ormuz com uma importância estratégica primordial que deriva da sua posição em plena rota do petróleo (Qeshm, Larak, Tomb, Abu Musa, Forur e Queys) e um outro ilhéu, Khark, utilizado como terminal petrolífero.
O Irão ocupa uma meseta, entre 1000 e 1500 metros acima do nível do mar, sobre uma zona geológica instável, rodeada por cadeias montanhosas com altura média de 2000 metros. As únicas terras baixas são as formadas pela estreita franja costeira do golfo Pérsico, pelas margens do mar Cáspio e pela depressão do rio Karun, na fronteira com o Iraque. Rodeando a meseta interior, a norte, encontramos os montes Zagros, estendendo-se no sentido noroeste-sudoeste seguindo a linha de costa do golfo Pérsico, e tomando a direção sudeste até entrar no Paquistão (Balochistão). No quadrilátero montanhoso que rodeia o planalto iraniano, a norte, alongando-se paralelamente à margem sul do mar Cáspio até se unir com os montes Khurasan, na fronteira com o Afeganistão, depara-se-nos o monte Damavand, com 5604 metros (o mais elevado do Irão) e a cordilheira de Elburz, com uma altura média de 4000 metros.
O ponto mais baixo do Irão situa-se no mar Cáspio, a 28 metros abaixo do nível do mar. Dois grandes desertos ocupam grande parte do centro do Irão: o Dasht-i-Lut, coberto de areia e rochas e o Dasht-i-Kavir, que inclui o lago Namak, coberto na sua maioria de sal. O deserto de Lut está situado na região centro-oriental do país. Nele existem áreas rochosas, de depósitos salinos e dunas. O deserto de Naomid, que se prolonga pelo Afeganistão, é uma região de estepes. Os principais rios do Irão são o Helleh, o Mand e o Kol (no golfo Pérsico), o Koja (no mar da Arábia), o  Araks (fronteira com o Azerbaijão), o Safid Rud, que nasce no Curdistão, o Atrak e o Karun, navegável em cerca de 180 km e que percorre a parte noroeste do país, fazendo fronteira com o Iraque até desaguar em Jorramshar, no Shatt al-Arab.
O território do Irão conta também com múltiplos lagos. O maior é o Urmia, ou “lugar da água”, a uma hora de carro da fronteira com a Turquia e o Iraque. De acordo com a estação do ano, a superfície desta que é considerada a segunda maior bacia de água salgada do mundo, pode variar de 4500 a 6000 km².
No que se refere ao clima, o Irão divide-se em quatro grandes grupos, de acordo com a especificidade de cada uma das regiões incorporadas: a zona virada ao golfo Pérsico e para o golfo de Omã é extremamente seca com temperaturas que chegam a atingir os 55º C; ao centro, nas terras altas, registam-se temperaturas moderadas; nos extremamente frios montes de Elburz as temperaturas em alguns lugares chegam a atingir os -20º C e, por fim, na região adstrita à margem do mar Cáspio o clima é mais temperado, sem significativas variações climatéricas. O este do Irão está ainda sujeito ao chamado “vento dos cem dias”, que se faz sentir sobretudo durante o Verão com velocidades superiores aos 160 Km/h.
O persa é a língua oficial do país, seguida do curdo, turco, azeri, balochi, árabe e arménio. O petróleo é o principal recurso económico do país. As principais jazidas situam-se nos montes Zagros e no golfo Pérsico. As refinarias estão localizadas em Teerão, Masjed Soleyman e Shiraz. Do subsolo são extraídas também grandes quantidades de gás natural, carvão, ferro, chumbo, crómio, zinco, cobre, magnésio, sal e magnetite. O uso de canais subterrâneos, chamados “qanats”, favorece a irrigação do escasso, mas fértil, solo iraniano dedicado à agricultura. São cultivados trigo, arroz, algodão, tabaco, beterraba açucareira e frutas. A pesca também é importante para a economia do país. No mar Cáspio captura-se o esturjão, de cujas ovas se obtém o caviar, que é considerado um dos melhores do mundo.
(continua)

Wednesday, 9 May 2012

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios (II)

            Yazd, ou “esmeralda”, fica situada no deserto de sudeste, a 1230 metros de altitude, sendo rodeada por lagos salgados. A sua construção em zona tão adversa deve-se à situação estratégica da localização entre Isfahan e Kerman, na rota que leva ao Paquistão e ao Afeganistão. Célebre pelos seus têxteis e tapetes, foi mais uma das cidades poupadas pelas invasões mongóis. É conhecida como terra de adoradores de fogo zoroastrianos. Para além das ruínas das “Torres do Silêncio”, são célebres as suas torres do vento (“bagdir”), ainda hoje em uso em numerosas construções, para refrescar as casas e a água, através de um sistema de ventilação natural;
            Persépolis é hoje um bem conservado e excecional sítio arqueológico, dotado de serviços de apoio de muito boa qualidade. Pela dimensão e beleza, possui um enorme poder evocativo do seu esplendor passado de cidade puramente cerimonial. Por altura do ano novo do calendário mazdeísta, todos os estados vassalos vinham reafirmar a sua submissão e prestar tributo ao Rei dos Reis. A cidade, idealizada por Dario I (séc. IV a. C.), guardava ainda muito do seu esplendor quando, em 330 a.C., Alexandre, “o Grande”, a invadiu sem encontrar resistência, pilhando todas as suas riquezas, mas poupando os edifícios, salvo o Palácio Real, que foi pasto do fogo;
            Tezerj fica no caminho entre Bandar Abbas e Kerman, no exuberante oásis do deserto que cerca as imediações de Saadat Abad. As águas da caudalosa nascente, que se derramam em cascata, sustentam a vida em redor;
            Naqsh-e Rostam fica sensivelmente a quatro quilómetros, a norte de Persépolis, localizada nas falésias de Kuh-e Hossein. Foi aqui que os reis aqueménidas Dario I (521-485 a.C.) e os seus sucessores Xerxes I (485-465 a.C.), Artaxerxes I (465-424 a.C.) e Dario II (425-405 a.C.), mandaram escavar os seus túmulos.
Na mesma falésia, foram posteriormente acrescentadas, na época sassânida, diversos baixos relevos e inscrições. Em frente, encontra-se uma pequena construção isolada, possivelmente um antigo templo do fogo;
            a cidade de Naein, que pertence à província de Isfahan, fica no cruzamento das estradas que conduzem a Yazd e a Tehran. Tem importantes monumentos, como a Mesquita Aljama que possui elementos que remontam ao século X. É também célebre uma bela mansão da época safávida, de pinturas murais com decoração vegetalista e alegórica, dragões e fénix;
            Na estrada que vai de Yazd para Shiraz, depara-se-nos a pequena cidade de Arbakuh, cidade-oásis e, em tempos idos, caravaneira. Tem, pelo menos, dois monumentos dignos de realçe: a Mesquita Aljama, do século XIII e uma torre do silêncio, Gonbad-e Ali, do século XI. Todavia, o “monumento” mais notável é, sem dúvida, o seu gigantesco cipreste. Para os sufis, uma árvore sagrada e símbolo da totalidade em potência. O venerável cipreste faz jus a essa devoção, uma vez que, segundo a placa, com dados científicos que junto ao mesmo se encontra, terá a provecta idade de 4500 anos, o que o torna uma das árvores mais antigas da Terra;
            a prestigiosa cidade de Kerman, fundada no século III (d.C.) e capital da província com o mesmo nome, fica a 1800 metros de altitude no planalto iraniano. Na região da cidade do pistacho têm sido descobertos vestígios arqueológicos que remontam ao século V (a.C.). Encruzilhada de civilizações e, por esse facto, sujeita a todo o tipo de invasões, a antiga Karmina, de clima desértico e de montanha, é rica em belezas naturais e conta com cidades únicas, como a já referida Bam;
            Fazendo parte da província de Hormuzgan, a pequena ilha de Ormuz, cujo nome é tão familiar aos portugueses, situa-se no golfo Pérsico, a curta distância de Oman e dos Emirados Árabes Unidos. Esta posição estratégica tornou-se inevitavelmente um importante entreposto comercial. Por ela passavam, desde o século XIV, toda a sorte de mercadorias, nomeadamente especiarias, vindas da China e da Índia. Apesar do tempestuoso estreito que a separa do continente asiático, da insalubridade do seu clima subtropical e da escassez de água e vegetação, Afonso de Albuquerque escolheu-a para nela estabelecer o seu domínio, em nome de Portugal. Assim assegurou o controle de um dos mais importantes itinerários da rota comercial do oriente, naquelas paragens. A isso se deve a conquista da ilha em 1507 e a sua reconquista em 1515. A fortaleza que nela ainda existe foi construída com blocos de coral retirados do mar. Em 1622, com o auxílio de uma frota inglesa, Shah Abbas conseguiu tomar a ilha aos portugueses e apoderar-se da fortaleza;
            Nishapur é uma cidade com um glorioso passado sufi. Nela terá nascido o grande humanista e poeta Omar Khayyam e ali terá também ensinado o grande teólogo e gnóstico al-Ghazalli (Algazel, 1058-1111 d.C.). O declínio da cidade tornou-se irreversível com a sua tomada, em 1221 d.C., pelo exército mongol que, depois de massacrar toda a população, a arrasou e destruiu as suas famosas bibliotecas. Uma das poucas construções primitivas que sobraram de tal catástrofe foi precisamente o túmulo de Omar Khayyam. Esse túmulo foi restaurado em 1934 e transformado em mausoléu. Fica nos jardins do Imamzadeh Mahruq, nos arredores da cidade;
            Parsagada é um sítio arqueológico aqueménida, ainda por explorar na sua quase totalidade, que se encontra na planície de Murghab, próximo da estrada que vai de Shiraz a Yazd, e a cerca de 70 quilómetros de Persépolis. Diz-se que a escolha do local de construção da nova cidade, por Ciro II, se deve à vitória que o mesmo obteve, em 550 a.C., sobre o exército dos medos, à frente do qual se encontrava o rei Astyago. De qualquer modo, a partir de 522 a.C., com a subida ao trono de Dario I, a cidade perde importância em favor de Susa e Persépolis. O túmulo de Ciro que, segundo os cronistas de Alexandre, “o Grande”, conteria a urna em ouro do rei, foi por este último encontrado violado, com todo o seu conteúdo desaparecido, aquando da sua entrada na cidade. A carga simbólica desse túmulo, isolado e jazendo sobre a cidade soterrada, é muito grande. À velha urbe se referiu o grande poeta modernista brasileiro Manuel Bandeira no célebre poema que começa com “vou-me embora para Parsagada/ lá onde mora o rei...”;
            Situada na estrada de Bam, a cerca de 40 quilómetros a sudeste de Kerman, situa-se Mahan, conhecida sobretudo por abrigar os restos mortais do mestre sufi e poeta do século XV, Shah Nematollah Vali. Este “shaykh”, fundador de uma confraria de dervixes, é objeto de particular veneração, sendo a sua imagem vista em todo o país. O complexo arquitetónico que abriga o mausoléu é de grande beleza. Digno de menção é também o Palácio Shahzadeh, sobretudo pelo esplêndido jardim, com cachoeiras artificiais e árvores centenárias, e que à noite é todo iluminado;
            Isfahan, a “Veneza do Oriente”, a “Pérola do Mundo”, tão cantada nas “Mil e Uma Noites”, ostenta ainda hoje a sua glória. Diz um ditado: “Esfahan nesf-e djahan”, ou seja, “Isfahan é metade do mundo”, querendo com isso exaltar toda a magnificência da capital safávida. Nela não há hoje o furor de Teerão, mas antes o ambiente descontraído que permite desfrutar de todos os seus inumeráveis encantos. Os principais monumentos devem-se à iniciativa do Shah Abbas, que fez da cidade capital, em 1598, e lhe imprimiu um traçado surpreendentemente moderno, para a época, dotando-a de largas praças e avenidas. No entanto, as suas origens remontam a dois ou três séculos antes de Cristo. Nela avultam as mesquitas cor turquesa que povoam os sonhos de todos os que se interessam pela cultura islâmica. Basta que se diga que a cidade tem 210 mesquitas, 84 caravancerais e 150 balneários: e tudo isto apesar de só uma ínfima parte dos edifícios da época safávida ter subsistido. Em Isfahan nem sequer faltam templos cristãos, como a catedral e a Igreja de Belém, de rito arménio, dotada de magníficos frescos. Entre os ícones de Isfahan, cabe salientar-se a majestosa Praça Real (Meidan-e Imam), a maior praça fechada do mundo, guarnecida de monumentos únicos, e também diversas pontes que vão muito além da sua função utilitária, pois são oásis de beleza e tranquilidade, para repouso e convívio.

(continua)

Saturday, 5 May 2012

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios (I)

“Quem quer compreender a poesia, deve ir ao país da poesia.
Quem quer entender o poeta, deve ir ao país do poeta.”
(Goethe)

Em Junho de 2002, a convite da Iranology Foundation of Tehran e da Secção Cultural da Embaixada da República Islâmica do Irão em Lisboa, participei no I Congresso Nacional de Estudos do Irão com o trabalho “Jumhuri-ye Eslami-ye Iran: Terra do Leão e do Sol”, integrado nos Estudos de Iranologia da Universidade de Tehran Buzurg. A minha procura do “oriente donde vem tudo, o dia e a fé, pomposo e fanático e quente, o oriente budista, bramânico, sintoísta”, como diria Fernando Pessoa, passava basicamente por conhecer aquela Pérsia mítica e mística que me povoava, desde a juventude, os sonhos mais intrínsecos. As cúpulas turquesa que pontificavam na obra “Mil e Uma Noites” (“alf laila ua laila”), os esplendores perdidos de Persépolis e Parsagada, a poesia inefável de Rumi, Hafiz, Sa’adi, Ferdusi, Nezami, Khayyam, Rudaki e tantos outros, faziam, desde há muito, parte da minha matriz interior.
E o Irão que eu revivo – aquela terra a que Michelet apelidou “a grande estrada do género humano” – é o Irão que se tornou morada de saberes, tesouros e mistérios, que os séculos a forma lhe trouxeram modelando sonhos nele erguidos, do pasto para a poesia, do remanso da sua gente fechada, sóbria, especiosamente sentimental, culta, amável e de uma generosidade iniludível, portadora de uma herança cultural e histórica fabulosa que, lamentavelmente, muitas vezes os media, e sobretudo a “squared reality” do pequeno monitor, distorcem burlescamente, ao serviço de inconfessáveis desígnios de dominação económica.
É o país do “taarof” – costume local de recusar, com hospitaleira elegância cerimonial, após duas vezes, antes de finalmente se pagar pelo que nos é vendido –, facto que originou o viver de situações insólitas que, inda hoje, ao contá-las, continuam a suscitar a mesma satisfação e motivo de gracejo que naquela altura experimentei. É a terra da brisa morna, das noites claras, dos corais e da prece dos crentes. É o Irão do frenesim, do exotismo dos bazares e do tropel do tempo. Dos perfumes inebriantes e particulares a roseiras mil à espera de florir e do cheiro a arroz de açafrão (“safran”). Do sopro fagueiro do dervixe que ali jaz, da mulher de “chaador” (“tenda”), de olhar seráfico e do homem austero de altivo “dullband” (turbante). Dos ciprestes banhados de luar, do rouxinol, dos luxuosos tapetes característicos, das alamedas majestosas, do pitoresco das flores, das soberbas mesquitas de telhados abobadados e azulejos azul-turquesa no vórtice das almas, da luz, do infinito, das sombras e do silêncio, do “pishtaq” de uma elegância que embota o ruído e das cúpulas que revelam o cosmos que existe em nós.
Reza um velho aforismo persa: “o Irão tem um poeta para cada estrela do céu”. O dom da imaginação poética e artística revelam-no através de duas obras fundamentais da sua literatura, escritas no século XV e que chegaram até nós acompanhadas de iluminuras de um excecional valor artístico. Um desses livros, “Kalila e Dimna”, crê-se ter influenciado La Fontaine ao compor as suas “Fábulas”. Os escritores franceses do século XVIII mostraram-se muito interessados pelo exotismo oriental. Montesquieu, nas “Cartas Persas”, oferece-nos uma interpretação dos sentimentos, maneira de viver, costumes e trajar dos persas do seu tempo. E “As Mil e Uma Noites” foram conhecidas na Europa, na mesma época, por uma tradução francesa. Foi essa curiosidade pelos usos e costumes de povos estranhos que fez penetrar na Europa o jogo do polo, praticado pelos reis e senhores da Pérsia, como documenta uma bela miniatura datada do século XVI.
Contemplo e demoro-me, em instantes de meditação, em alguns dos seus locais, uns emblemáticos, outros anódinos, mas todos eles perpassados por uma espiritualidade transversal ao tempo, do zoroastrismo – crença monoteísta fundada por Zoroastro ou Zaratustra (séc. VI a.C.), que se tornou religião oficial da Pérsia no século III e ainda é professada por tribos do interior do Irão e parsis da Índia – ao Islão, e que encontra no Sufismo a sua mais luminosa expressão.
Faz-me guarda a lembrança da componente iraniana que nem faltou sequer no cadinho onde se formou a portugalidade, uma vez que os alanos, povo persa, também passaram pelo território da Lusitânia.

“Aquele cujo coração não vive senão do amor não morrerá jamais” – Hafiz (1320-1391 d.C.)

E, mais além do que um genuíno mergulho no mito, rememoro as cidades iranianas de maior notabilidade:
            a nobre cidade de Teerão, fundada por volta do século XI, erguida no sopé dos montes Elburz, rodeada de montanhas, nevadas grande parte do ano. O grande desenvolvimento da cidade ocorreu a partir do primeiro quartel do século XX, razão pela qual Teerão é entre as cidades iranianas a que possui um aspeto menos oriental. A parte norte da cidade corresponde à cidade nova e a parte sul à cidade do tempo dos Qajar. Não se podendo comparar em beleza aos grandes centros urbanos do período clássico, não deixa, apesar disso, de ter muitos encantos, como é o caso dos seus formosos palácios, jardins e valiosos museus. Emblemático é o Palácio Gulistan (“das rosas”) da época qadjar, rodeado de jardins e que foi cenário de numerosos episódios da história política do Irão. Um dos seus pavilhões abriga hoje o Museu Etnográfico Mardom Shenazi;
            Shiraz, capital da província de Fars e situada num oásis dos Montes Zagros, é a mais poética de todas as cidades do Irão. A arte de um viver, simultaneamente hedonístico e espiritual, deu-lhe uma fama que ainda hoje ressalta do espírito do lugar. Terra dos poetas Sa’adi e Hafiz, são célebres os seus jardins e rouxinóis. O esplendor da cidade atingiu o cume no período islâmico, convertendo-se, a partir do século XIII, na capital literária da Pérsia. Tal acarretou uma sofisticação máxima, em tudo o que respeita às artes ligadas ao livro: a caligrafia, a iluminura e a encadernação. Shiraz, talvez devido ao seu prestígio intelectual, foi poupada pelas invasões mongóis de Gengis Khan (1220) e Tamerlão (1387), que tanta devastação causaram em todo o mundo islâmico. Se hoje a cidade, do ponto de vista económico, perdeu muita da sua importância estratégica, a inestimável herança cultural, paisagística e arquitetónica, fazem dela uma incontornável jóia para o visitante;
            Saadat-Shahr, uma pequena cidade, cujo nome significa “cidade da felicidade”, situada entre Marvdast e Qader Shahr, junto à estrada que liga Shiraz a Yazd, foi toda ela construída em barro (adobe), fazendo lembrar a célebre Bam, património mundial, destruída em 2003 por um terrível terramoto;
            Qom, capital da província com o mesmo nome, também conhecida por Q’um ou Ghom, localiza-se a 156 km a sudoeste de Teerão. Considerado o maior centro de ensino shi’ita, é uma cidade importante, santuário e expressivo destino de peregrinações. Existe uma tradição folclórica que afirma que o “12º Iman Oculto”, o grande salvador espiritual, dará uma importância especial à mesquita Jamkaran, na periferia da cidade, especialmente a uma fonte localizada por detrás da mesquita, de onde surgirá durante o período de caos mundial e obscuridade para liderar a batalha apocalíptica entre o bem e o mal e estabelecer uma nova ordem global. É comum ver-se crentes a lançar, a esse poço, papéis escritos com as suas orações e pedidos pessoais...
(continua)

Sunday, 29 April 2012

"Maravilhei-me com um oceano sem costa, e com uma costa sem oceano,
com uma luz da manhã sem escuridão, e com uma noite sem amanhecer,
com uma esfera sem qualquer posição, conhecida por pagãos e pregadores,
com uma abóboda celeste, erguida ao alto, girando, no seu centro,
a força mais arrebatadora,
com uma terra rica sem abóboda ou localização,
o mistério escondido."

(Ibn Arabi)

Tuesday, 24 April 2012

"Existem três formas de cultura:
a mundana ou o simples acumular de dados;
a religiosa, que segue determinadas regras;
a superior, baseada no aperfeiçoamento de si mesmo."
('Ali Hujwiri)

Sunday, 22 April 2012

"Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Mostramo-nos e escondemo-nos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo da minha relação contigo, porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu."
(Rumi)

Friday, 20 April 2012

Areias e Sonhos

«As pessoas deste mundo são como três mariposas diante da chama de uma vela. A primeira chegou perto da chama e disse: “Eu sei o que é o amor!”
A segunda, tocou levemente a chama com as suas asas e disse: “Eu sei como o amor pode queimar!”
A terceira, atirou-se para dentro da chama e foi consumida...
E esta foi a única a saber o que é o verdadeiro amor.»
(Fariduddin Attar)

Wednesday, 18 April 2012

O Grande Segredo de Alexandre

Alexandre o Grande era detentor de um segredo terrível que não podia confiar a ninguém. Dizer a alguém era uma maneira de falar, pois seria mais correcto dizer-se a ninguém excepto a uma pessoa, um ancião que era ao mesmo tempo seu barbeiro e seu confidente. O segredo era este: aquele grande rei tinha orelhas enormes. Eram de facto tão grandes que, receoso do ridículo, se via obrigado a escondê-las de olhares alheios. Assim, usava chapéu para tapar as suas orelhas e ninguém, à excepção do barbeiro, fazia a menor ideia que, debaixo do chapéu, escondia o seu segredo.
Com o tempo, o velho e fiel barbeiro caiu doente e ficou impedido de desempenhar as suas funções. Embora relutante, Alexandre não teve outro remédio senão procurar outro homem para cumprir o ofício. O velho barbeiro recomendou Vahid, um jovem servo da corte do rei. Vahid era honesto, responsável e competente, qualidades que levaram 0 barbeiro a não pensar em ninguém mais a quem se pudesse confiar o real segredo. De início o rei não quis aceitar os serviços de outro barbeiro, mas quando o velho morreu não teve outro remédio senão seguir o conselho do seu antigo servidor. Empregou Vahid. Bem vistas as coisas, o rei usava o cabelo bastante comprido e não podia dispensar os serviços de um barbeiro.
Quando chegou o momento de Vahid cortar o cabelo de Alexandre, ficou de tal modo espantado com o tamanho desmesurado das orelhas do rei que as suas mãos deixaram cair as tesouras. Alexandre, ao reparar no espanto do jovem barbeiro, falou-lhe nestes termos: “Se alguma vez contares a alguém o que acabaste de ver, mando primeiro arrancar-te a língua bem do fundo da garganta e depois corto-te a cabeça”. Vahid prometeu guardar segredo. Mas ficou de tal modo apavorado que, durante o resto da tarde e nos dias seguintes, a imagem da sua cabeça cortada a rolar no chão não lhe saía do pensamento.
Sentia um tal terror com a ameaça do rei, temendo deixar escapar qualquer alusão à sua precária situação, que raramente falava com alguém. Mas o tempo foi passando e Vahid começou a sentir necessidade, de modo cada vez mais acentuado, de partilhar o conhecimento daquele segredo. Guardar os próprios segredos já exige esforço de monta, quanto mais os segredos alheios. Ele bem sabia que só tornaria a respirar fundo e livremente se pudesse livrar-se do peso que lhe oprimia o peito, revelando a alguém o enorme tamanho das orelhas de Alexandre. Mas em quem poderia confiar? Uma vez dita uma pequena palavra, em poucos dias a cidade inteira estaria sabedora de que Alexandre era dono de orelhas grandes. Sem perda de tempo seguir-se-ia a execução de Vahid. Mas aconteceu que, por acaso, uma boa ideia acudiu à mente de Vahid.
E assim, um dia Vahid saiu do palácio e tomou o caminho de um prado, não muito longe da cidade. Deteve-se junto a um poço onde os pastores costumavam atardar-se para descansar e dar de beber aos seus rebanhos. Olhou em redor e, vendo que ninguém se achava nas proximidades, debruçou-se na boca do poço e bradou: “Alexandre o Grande tem orelhas grandes!” De imediato recuperou a calma e a tranquilidade. Sentiu-se leve e aliviado, sensações que há muito tempo não experimentava; para ser exacto, desde a primeira vez que exercera o ofício de barbeiro do rei. Feliz e contente, regressou ao palácio e desapareceu o mal-estar em que vivia.
Meses e meses passaram. Vahid parecia feliz com o seu trabalho e Alexandre achava-se satisfeito com ele. Todavia, o segredo do rei não estava tão seguro como Vahid imaginava. Depois de Vahid se haver deslocado ao prado, alguns caniços começaram a crescer à beira do poço. Um dia, um pastor que estava a tirar água, reparou nos caniços e colheu um. Fez uns furos na cana e assim improvisou um instrumento musical. Mas quando soprou naquela flauta de cana, soltou-se uma estranha melodia em que se podiam ouvir estas palavras: “Alexandre o Grande, tem orelhas grandes!”
Dias mais tarde aconteceu que também Alexandre passou por aquele prado. Para seu espanto ouviu as palavras “Alexandre o Grande, tem orelhas grandes!” Seguindo o som da música, chegou à tenda do pastor em cujo interior um homem soprava sossegadamente numa tosca flauta.
Furioso, Alexandre mandou prender o tocador de caniço e, sem qualquer explicação, deu ordem para o levarem para a corte. No palácio, o rei submeteu-o a tormentos para saber onde e a quem ouvira aquele cantar. O pobre pastor, apavorado, contou ao rei o que acontecera no poço com o caniço e jurou que não tinha qualquer responsabilidade no que respeitava às palavras cantadas pela flauta. Alexandre mandou então que Vahid fosse levado à corte para o interrogar. Vahid percebeu que não havia outra alternativa senão contar a verdade: “Eu juro, oh rei, que a única vez em que revelei o teu segredo, foi quando o gritei para dentro de um poço no meio do prado”.
“Gritaste para dentro de um poço?”, Inquiriu o rei, confundido com a resposta. “Porquê para dentro de um poço?”
“Porque não podia suportar por mais tempo o peso de carregar um segredo dentro de mim. E como não o podia contar a ninguém, pensei que um poço seria o melhor confidente”.
Preocupado em fazer justiça, Alexandre decidiu enviar alguém ao poço do prado e colher um outro caniço. Quando lhe trouxeram o caniço, disse ao pastor para fazer outra flauta. E aconteceu que, quando Alexandre pegou na flauta e a levou aos lábios, ouviu-se cantar: “Alexandre, o Grande, tem orelhas grandes”.
Por uns instantes, Alexandre permaneceu absorto em profunda meditação. Depois falou, e disse aos guardas: “Mandai o pastor em liberdade”. Em seguida olhou para Vahid e, um tanto embaraçado e franzindo o sobrolho, disse-lhe: “Se quiseres, podes continuar a ser o meu barbeiro”.
Dias mais tarde mandou chamar o melhor escriba que havia na cidade e deu-lhe a ordem de escrever umas linhas a letras de oiro. Depois mandou dependurar o escrito defronte do seu leito, de modo a que todas as manhãs fosse a primeira coisa que ele visse ao despertar. E o escrito dizia assim:
“Nunca te esqueças que és tu
o teu melhor confidente;
pois até um poço,
que parece lugar seguro,
é capaz de uma traição”.