“Muito além das ideias sobre o que é certo e errado estende-se um campo. Aí nos encontraremos.” – Rumi (1207-1273 d.C.)
Num antiquado alfarrabista na parte oriental da capital, contornando uma grande rotunda atravessada de quiosques de vendas de jornais, encontrei casualmente uma versão antiquíssima do livro persa “Hezar Afsaneh” (“Mil Histórias”). Na capa, original, lauta em entrelaçados geométricos que adotavam o subtil aspeto estilizado de formas hexagonais estreladas e de gavinhas geométricas abertas, que se repetiam indefinidamente e se atraiam umas às outras, sem nunca realizarem uma combinação ajustada, surgia uma inscrição, em parsi, de um dito do profeta Maomé que eu consegui traduzir para algo como “os meus olhos dormiam, mas o coração jamais dormirá”. Nada mais adequado. Desfolhando as suas quase carcomidas cinco centenas de páginas, deparei, a dado passo, com um interessante aforismo relacionado com uma figura “divina”, numa espécie de apólogo em cadeia à semelhança dos clássicos contos d’ “As Mil e Uma Noites”. Desfolhei, com viva curiosidade, esse folhento volume e, num capítulo marcado com traços a lápis de carvão, eram enaltecidos os valores de Mushkil Gusha, um género de santo, a quem eram atribuídas propriedades espirituais incontestáveis.
A história em si era muito longa, aliás nunca terminava. E tinha muitas versões. O nome Mushkil Gusha é uma designação persa para “o Dissipador de Todas as Dificuldades”. De grande parte dos iranianos com quem falei, obtive diferentes respostas. Alguns diziam-me que provavelmente seria ‘Ali, o genro do profeta Muhammad. Uma iraniana a quem coloquei essa dúvida, respondeu-me objetivamente: “É Deus, não é?!”. Outros dizem que Mushkil Gusha é o profeta Khezr “o Verde”, santo das confrarias dervixes, o patrono dos sufis, o “Mestre dos Mestres”, o “Murshid” dos santos, o ressuscitador das almas, o misterioso “Cavaleiro Verde” que tendo atingido a fonte da “Verdade” e bebido da “Água da Imortalidade” não conhece a velhice nem a morte.
O Alcorão menciona-o, sem citar o nome, como “um dos Nossos servos (...) um servidor dos Nossos Servidores, a quem concedemos uma misericórdia que procede de Nós e a quem Ensinamos uma ciência que procede de Nós” (s.18:65). A figura mais próxima a ele, encontrada na literatura, é Melquisedec, que aparece no Génesis, XIV: 18-20, como o rei de Salém, sumo-sacerdote que abençoa Abraão, e é alegorizado por São Paulo na Epístola aos Hebreus, V: 6, 10 e VII: 1, 10: “(...) ele era sem pai, não teve principio dos dias, nem fim da existência (...)”. Quer isso dizer que apareceu misteriosamente e parece ter vivido todo o tempo, embora em Herat haja uma tumba que dizem ser dele. De acordo com a tradição, habitualmente ele não é visível, mas pode aparecer sob a forma de um homem idoso, porém de grande vitalidade, com uma longa barba branca, vestido de verde, quando socorro e guia são desesperadamente necessitados.
Ainda hoje, no Irão, e particularmente entre as mulheres, persiste a tradição de evocar as aventuras de Mushkil Gusha. A lenda é contada todas as semanas, às sextas-feiras, dia santo muçulmano. Para além disso, têm o cuidado de distribuir pelos pobres um prato especial de comida. Esse prato, que não é mais do que uma mistura de ervilhas assadas, passas, tâmaras secas, figos secos, amendoins e pevides, toma a designação de “aajeel” ou “nokhod kishmish”. É por causa de Mushkil Gusha que as histórias sobre si narradas são lembradas por alguém, em algum lugar do mundo, dia e noite, onde quer que exista gente que precise de ajuda...
“Planta a árvore da amizade para a paz do teu coração. Arranca o arbusto da inimizade que envenena a vida. Aproveita a noite de diálogo, porque depois de nós o mundo irá girar muito mais ainda.” – Hafiz
Vem isto a propósito, em suma, ao ver o cenário lúgubre em que se pode transformar a atual situação no estreito de Ormuz. As ambições nucleares do Irão podem desencadear “uma nova Guerra Fria” mais perigosa que a registada entre os países ocidentais e a União Soviética no passado. Em Bruxelas, no início do mês de Fevereiro deste ano, após uma tensa reunião, os 27 representantes diplomáticos de países da União Europeia (UE) aprovaram uma imposição de um embargo às importações de petróleo do Irão. Como resposta, o governo de Tehran ameaçou bloquear o estreito de Ormuz, por onde passa 40% do tráfego de exportação do petróleo mundial.
O mais recente sinal de “deceção” para com os esforços postos em marcha pela comunidade internacional aconteceu a 21 de Fevereiro, após Teerão ter recusado a entrada de uma missão da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) na central de Parchin, alegadamente uma base nuclear com fins militares. Naquela que seria considerada uma “última hipótese” para Teerão, o embaixador do Irão junto da AIEA, Ali Asghar Soltanieh, não descartou a possibilidade de as negociações poderem continuar no futuro. Já este mês, nova ronda de diálogo deu o mote a um possível consenso. E, neste arriscado impasse, uma vez mais a humanidade arrisca uma perigosa clivagem de incontornáveis proporções. Já escrevia Paul Valéry, com abalizado conhecimento, que “nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais (...) Sentimos que uma civilização tem a mesma fragilidade que a vida”.
Que a figura grandíloqua de Mushkil Gusha, “protetor e guia dos mortais”, ora se reinvente, reconstrua e pulse, num desejo explícito de que a paz consiga sempre prevalecer, guardando os seus povos de nova truculência.
Ao estimado amigo Pedro Padinha, agradeço a gentileza na cedência da foto de ilustração de sua autoria.




